O fim de uma era…

Steve Jobs, 1955-2011

Meninos são sempre meninos…

Fim de tarde num coletivo qualquer da cidade… Relativamente vazio, ainda que num horário que não me agrada. Retorno dos meninos dos vários colégios… vozes demais, espaço físico de menos… Assumo minha tradicional posição de autista adotada em coletivos quando não tenho humor pra observar e/ou interagir. De início até funciona… Mas lá uma hora, quando menos espero, já comecei a me dar conta de dois garotos sentados atrás de mim. Até ali, imerso em meus próprios pensamentos e problemas, ainda não havia dado muita atenção ao que conversavam de forma tão animada… Mas ora… é ponto pacífico que conversa de ônibus é de domínio público. Ninguém em sã consciência conta segredos – não os que quer que sejam mantidos como tal – dentro de um ônibus. E lá vão os dois guris, tagarelando. E lá vou eu, me desligando por um tempo de minha própria vida pra, de forma relutante, me dedicar a esta que é a provável atividade mais prazerosa a que pode se dedicar um ser humano: Saber da vida dos outros.

A conversa dos meninos – que pareciam recém-saídos da aula – não poderia estar girando em torno de tema mais batido. Meninas… Um deles comentava com o outro quão gostosa estaria uma coleguinha de colégio. O outro respondeu alguma coisa num tom de voz um pouco mais baixo (eu já fui menino, e lógico, não precisaria escutá-lo pra imaginar o teor do que foi dito). Ao que o primeiro – nitidamente o mais extrovertido dos dois – retrucou a título de troça e em alto e bom som sobre a suposta virgindade do mais tímido. Bom… Nessa hora não tive como evitar um sorrisinho de canto de boca, lembrando de mim mesmo aos 13 ou 14 anos, e de quão ferinos poderiam ser comentários desse gênero na pré-puberdade. A resposta, que obviamente teria sido a minha própria| em outras épocas, ou a de qualquer outro guri ferido em sua virilidade, foi uma daquelas grosserias ditas da forma mais desavergonhada e alta possível, em que com todo o gosto do mundo se envolve a mãe, irmãs e o que mais de componente feminino houver na família do oponente. Evidentemente, na maior parte das vezes meninos não dizem isso com o intuito de machucar o outro. Dizem rindo, estapeando-se de leve, com aquela vitalidade ingênua que chega a assemelhá-los às vezes a cachorrinhos! Tentem observar cãezinhos brincando. Eles rosnam um pro outro, dão-se patadas e lambuzam-se (e também aos donos), e tudo isto com uma energia ingênua que beira a burrice. Tantas vezes quantas forem jogadas bolas coloridas de borracha para que peguem e tragam, tantas vão ser as vezes em que eles as pegarão e trarão… e em todas as vezes, com aquela cara de felicidade e a língua bobona escorrendo baba pra todo os cantos.

É a mesma vitalidade com que os guris lançam-se às discussões mais descabidas, como se da defesa de seus pontos de vista naquele momento dependessem suas próprias integridades. E é assim que percebo os dois pequenos ali atrás agora a ponto de se engalfinhar por não chegarem a um consenso sobre se seria ou não burrice ir a uma LAN House para jogar Super Mário, como um deles aparentemente havia feito, e tentava se explicar. Aqui cabe um aparte: Em geral se vai a LAN Houses com o intuito de disputar jogos em equipes, como corridas em grupos, futebol, voleibol e os famosos jogos que simulam combates. Por isso mesmo faz parte da formação cultural de guris de qualquer parte do mundo| saber que é o maior contrasenso, além de desperdício de tempo e dinheiro ir a um| destes templos de jogatina brincar de Super Mário ou acessar Internet. E neste ponto eu, menino que já fui um dia, com uma rápida olhadela de desaprovação velada fiz o menino do Mário perceber que não tinha como ganhar aquela… Pra não perder ainda mais terreno, eis que o| guri muda sutilmente o rumo da conversa. Só que notei logo que foi infeliz. Na pressa pra sair da situação constrangedora, instigou o outro a falar das aulas de Matemática. Campo| que, tão logo começaram a falar, ficou claro que não era de domínio de nenhum dos dois… desculpas gaguejadas aqui e ali sobre os| fracos rendimentos de ambos na matéria, pelo menos nesse quesito| ambos, que até ali haviam discordado em praticamente tudo sobre o que conversavam, uniram-se no ataque aos professores… aqueles “ordinários sem nenhuma| didática”, que aparentemente haviam reprovado boa parte da turma sem razão alguma (“notas baixas?”, pensei cá comigo…)!! Daí a falarem dos boletins foi um passo, para logo falarem das professoras bonitas que tinham, e dos planos mirabolantes para que não precisassem ir às recuperações de final de ano (e eu imaginando se não seria mais fácil começarem a estudar logo por agora, ainda no início do ano, que já começarem a traçar os tais planos alternativos?), e mais adiante estavam novamente discutindo sobre meninas gostosinhas do colégio… meninos vão ser sempre meninos…

E tudo isso do alto da vitalidade de seus 13 ou 14 anos. E eu imaginando por que cargas d’água eu não tinha ali comigo uma bolinha colorida, só por via das dúvidas…

O texto foi postado originalmente por mim no E-digitais em 2006.03.13.

10 mandamentos

1. Ame bem.
2. Busque o bem em todas as coisas.
3. Não faça mal aos outros.
4. Pense por si mesmo.
5. Assuma responsabilidade.
6. Respeite a natureza.
7. Faça o seu melhor.
8. Seja informado.
9. Seja bondoso.
10. Seja corajoso – ao menos tente sinceramente.

Texto encontrado originalmente aqui.

Para Johannes Mario Simmel

Era noite de domingo. Muito fria… chuvosa demais… E o menino vestido de trapos tremia. Era uma chuva muito grossa, daquelas que caem fazendo alarde, e a gente quando olha pro céu chega a ter medo… Da escuridão em cujas entranhas a vista não consegue entrar, apesar de nem ser ainda tão noite… do peso de bloco enorme e coeso de nuvens às vezes cinzas, outras pretas… A chuva torrencial que caía já seria dolorosamente fria pra um adulto… e ele era só um menino (vestido de trapos), que do alto da inocência dos mal completados treze anos tentava como melhor podia se arranjar no meio de pedaços de papelão já tão ensopados que já se tinham tornado num bolo disforme de qualquer coisa descolorida. O menino vestido de trapos tremia de tal forma que já não sentia as caimbras nas pernas, desconfortáveis que estavam pela posição de semi cócoras. E ele já pensava com dificuldade… olhava os reflexos amarelados e incertos que os poucos carros que passavam rápidos riscavam na pista logo à sua frente. E dos carros o pensamento voa pra algumas semanas antes, quando tudo que fazia sentido em sua vida desaparecera… sempre fora filho de família pobre. Saía muito cedo de casa pra ajudar como podia na renda da família. Vendia doces… engraxava sapatos… e naquela noite fatídica voltara do dia de trabalho pra ver a confusão enorme próximo ao barraco onde morava. Com as chuvas, houvera um deslizamento. Tudo que era seu se perdera. O minúsculo quarto… os poucos brinquedos de latas e pregos… as roupas… os pais… E foi só muitas horas depois, quando já tinham se ido os homens de gravata e os policiais, que o menino (que até ali, mesmo com toda a sua pobreza, nunca vestira trapos) percebera o alcance de tudo aquilo. Não tinha mais sua mãezinha… nem tampouco o pai, carinhoso lá do jeito ríspido que a vida o forçara a ter. Não tinha mais ninguém no mundo. E saiu andando… não sabia pra onde iria… nem lhe importava muito. As últimas semanas foram de um mendigar aqui e ali, até chegar àquela praça, que pelo menos era um bom lugar pra passar as noites. Pelo menos quando não chovia…

A viúva levantou um pouco os olhos em completo êxtase. Era como se a mornidão daquele ambiente de completa elevação espiritual fosse imune às intempéries da natureza agindo logo ali tão perto. De vez em quando chegava, como que desafiando a atmosfera abafada do lugar, uma rajada de vento frio e cortante vinda de fora. Mas era logo como que rechaçado pelo calor de tantos corpos juntos, que acabavam por se fazer mais fortes pela força de seus cantos, entoados sob luz oscilante das velas e das lâmpadas, e o cheiro forte e inebriante do incenso. Nestes últimos meses estes eram os poucos momentos em que tinha um pouco de paz interior. O marido, já falecido há muitos anos era hoje uma pálida e distante lembrança de tempos mais felizes… Nunca casara novamente, e a alegria única e maior de sua vida era o filho. Menino caprichoso, cursava medicina e orgulhava a mãe com sua natureza bondosa e sonhadora. A notícia de sua morte num assalto quando voltava dum barzinho onde havia ido com uns amigos havia sido um choque tão grande que ela nem chorara… É que acalentava secretamente a esperança de vê-lo entrar pela porta a qualquer momento, o ar despreocupado e juvenil, beijar-lhe a testa e lhe contar de seu dia. Daí não ter acompanhado os noticiários, nem ter sabido que haviam sido presos e julgados os assassinos do filho. E nem lhe interessaria… O filho viria um dia, com a doçura característica do olhar, e sorriria pra ela. Era nisso que pensava quando, olhando mais uma vez a beleza da arquitetura a sua volta, cercada por santos de semblantes bondosos, levantou-se com a leveza e serenidade natural nos que tem crença.

Puxa, como estava frio!! Mas pelo menos a chuva havia passado. Agora era só a fúria da água que, entupidos os bueiros, procurava por onde escoar. Desceu vagarosamente a escadaria da igreja e passava pela praça quando notou o que parecia ser um monte de papelão se mexendo. A curiosiade venceu o medo, e aproximou-se mais alguns passos. O papelão tremeu um pouco, e apareceu uma pequena mão. Não era um animal procurando restos de comida. Havia uma pessoa ali! O primeiro instinto ainda foi se afastar… mas a mãozinha era tão pequena… parou. Era um menino. Um menino vestido de trapos. E olhava pra ela. E tremia tanto. E os olhos… os olhos eram de uma desesperança tão grande… mas ao mesmo tempo havia tanta ternura… tanta carência…

- Ei menino. Onde você mora?
- Moro em lugar nenhum não… Durmo aqui.
- Não está com frio?
- Muito…
- … (os olhos são duma ternura tão grande!)
- …
- Porquê não vem comigo? Vamos arranjar umas roupas secas pra você vestir…

E tocavam os sinos. Mas nenhum dos dois escutou…

O texto foi publicado originalmente por mim no E-digitais em 2006.06.26.

Quanto a Johannes Mario Simmel, trata-se de um autor austríaco cuja escrita descreve cenários e tem um tom de melancolia que me agrada.

Religião não define caráter

Li hoje em ATARDE matéria sobre a recusa de uma empresa de publicidade de Salvador de, mesmo após assinado contrato, divulgar o material de uma campanha publicitária patrocinada pela Associação Brasileira de Ateus e Agnósticos e que seria veiculado por um mês nos ônibus da cidade. A alegação do gerente da dita empresa é de que a veiculação do material seria uma clara ofensa religiosa.

Somente para contextualizar, a campanha já existe e os anúncios vem sendo veiculados em alguns países da Europa (os que tenho notícia são Inglaterra e Espanha) e nos Estados Unidos. Trata-se de várias frases de efeito do tipo:

There’s probably no god. Now stop worrying and enjoy your life.

(que eu traduziria como: “Provavelmente não existe deus algum. Então pare de se preocupar e vá curtir sua vida.”)

Parece ser o tipo de coisa que ofenda mesmo o mais sensível e abnegado dentre os religiosos? Ela tem, a meu ver, muito do caráter (com o perdão do trocadilho) espirituoso e blasé que caracteriza boa parte dos ateus. Aliás, é bom que se destaque que provavelmente esta postura de certa indiferença diante das possíveis (des)crenças dos que o cercam é uma das poucas atitudes que unem os que se dizem descrentes, já que não há uma “forma de pensar atéia”, ou quaisquer tipos de regras a serem seguidas a fim de que alguém possa se autodenominar ateu (a não ser pela óbvia descrença na existência de um deus, ou inteligência maior, ou o-que-quer-que-seja-onipresente-ciente-e-potente).

Apesar do aparente balaio de gatos que resultaria de se tentar juntar pessoas que justamente por sua característica de prezar o livre pensar tendem a certo individualismo, há pelo mundo afora grupos os mais diversos de ateus. Inclua-se aí desde setores mais moderados, para os quais é importante que haja fóruns de discussão bem estabelecidos para os principais temas relevantes para os descrentes, e que mantém uma boa relação com religiosos, até os mais radicais, como um grupo texano  (vale lembrar que o Texas e um dos estados mais conservadores dos EUA) que é conhecido pelos discursos inflamados e a oposição direta aos grupos religiosos de lá.

Particularmente, penso que as religiões são um fardo que a humanidade vem carregando, que dificultam sua elevação cultural com suas velhas amarras de pode x não pode, regras tolas baseadas num tradicionalismo que não se sustenta frente uma boa discussão filosófica e intolerância. Não é preciso muito mais que pegar um livro de história e dar uma rápida lida nos capítulos referentes à Idade Média para se ter uma idéia do mal que o catolicismo e seu obscurantismo fez (e ainda faz) para o mundo. E o que dizer do islamismo e a intolerância machista e violenta que invariavelmente cerca seus gestos? Gente como aquela derruba aviões em prédios públicos entupidos – aviões e prédios – de inocentes. E não serve como desculpa alegar que se tratava de um ato isolado de um grupo de loucos. É que é grande demais o número de casos de pessoas que estouram-se a si mesmas em troca de virgens e levados por crenças religiosas para que se possa atribui-los a situações pontuais…

Crer ou não em deus é outra história. Que cada um creia no que bem entenda. A mim importa muito pouco o que as pessoas a meu redor pensam sobre deuses, julgamentos finais, vida após morte, karma ou o que seja. Não tenho a resposta para nada disto, não levanto bandeira alguma, mas tenho a meu favor a integridade da postura que vem do questionamento sincero, que com o tempo vai invariavelmente me conduzir à verdade (ou o mais perto dela que eu conseguir chegar). O importante aí é que o Estado não se interponha nesta esfera de discussão, e que seja garantido a todo mundo o direito do livre pensar. O que já vem me preocupando desde alguns anos – e acho que é mais ou menos o que também preocupa a essas associações atéias que vem surgindo tão frequentemente na América Latina – é a pressão enorme que esses religiosos vem fazendo nos últimos tempos. Eles são maioria; ocupam cada vez mais posições chave dentro da política e das mídias de comunicação, e deturpam e entravam o bom debate com esse monte de idéias pré-concebidas e cheias de preconceito (haja vista o sr. Datena e as bobagens intolerantes, preconceituosas e totalmente desinformadas que falou há algumas semanas em seu programa aqui e aqui).

É que valores morais e correção de caráter transcendem deus no coração, ao contrário do que o sr. Datena e tantos outros hipócritas do mesmo naipe fazem crer.

P.S. A campanha é válida, a meu ver. Peca entretanto pelo choque inicial que provoca. Creio que alcançaria os mesmos resultados se as comparações feitas nos busdoors fossem entre indivíduos de mesma índole, separados tão somente por crenças. Por que não, por exemplo, compara um bom estadista ateu com outro bom estadista religioso, ao invés de comparar Chaplin (ateu) a Hitler (supostamente crente)?

O doutor Ari.

Acabo de ler no Estadão uma matéria que me chamou bastante a atenção. O excelentíssimo dr. Ari Pargendler, no uso de suas atribuições de presidente do Superior Tribunal de Justiça, em Brasília, demitiu o estagiário Marco Paulo dos Santos (24 anos). Até aí, nada demais… chefes demitem estagiários todos os dias.

As circunstâncias em que a demissão ocorreu é que são dignas, no mínimo, de um sentimento mudo de decepção que faz pensar: “Droga… será que depois de tanta água rolar, ainda é assim que as coisas funcionam?” Depois de lida a matéria, não dá pra não fazer algumas considerações ingênuas:

  • Fabiane Cadete é definitivamente uma dessas brasileiras que nos faz ter algum orgulho dessa gente comum e íntegra que se vê na rua no dia-a-dia.
  • O dr. Ari Pargendler, ao contrário, remete a tudo que de mais mesquinho ainda há em nossa sociedade.
  • Será que para a ministra Ellen Gracie o fato de manter relações de amizade com o nosso dr. Ari é fator impeditivo de julgamento de caráter? Ou seja: por serem amigos, a atitude dele é menos passível de recriminação?
  • Correndo o risco de perder completamente a razão, uns tapas bem dados na autoridade ali tão bem representada não lavariam a muito bem lavadas as almas tanto de Marco Paulo quanto de cada um desses desconhecidos que passaram e passam por situações vexatórias similares o tempo todo nessa vida?
  • Vai acabar tudo em pizza?

O Luciano

O Luciano era um cara estranho… no colégio particular em que ele e mais outro tanto de pré-adolescentes filhos de classe média estudavam sempre era aquele menino que não fazia parte de nenhuma turma. Era solenemene ignorado pelo pessoal descolado. Afinal, com aquele visual “camisa-pra-dentro-da-calça” e tênis antiquados, sem falar da postura, mais antiquada ainda, passaria sempre longe dos ícones de popularidade do colégio. Com os CDFs, por outro lado, tinha uma relação um pouco mais amigável, ainda que fria. Apesar do rendimento medíocre na maior parte das disciplinas, o Luciano escrevia extremamente bem (ou pelo menos era o que dizia o professor de Redação, um dos poucos que sabia seu nome, e ao qual os alunos em geral não davam lá muita atenção) e tinha notas invariavelmente altas em História, Geografia e Literatura. Isso o aproximava um pouco da turma que disputava praticamente aos tapas os assentos mais próximos do professor, ainda que ele próprio sentasse sempre sozinho no fundo da sala. Às vezes era mesmo confundido com um dos bagunceiros; grupo animado e propenso a brincadeiras fora de hora, sempre ali pelo fundo dando trabalho a professores e coordenadores. Mas uma olhada um pouco mais atenta permitiria logo perceber que aquele menino magro, de olhar tristonho e cabeça sempre baixa definitivamente não tinha o perfil de alguém que bagunçasse numa sala de aula. Na verdade, de alguém que já houvesse bagunçado onde quer que fosse alguma vez na vida.

Mas lá vinha o Luciano, o velho walkman já meio arrebentado na mochila, escutando no ônibus a caminho da escola a fita cassete que acabara de gravar… Era de uma banda estranha. Uns sujeitos que falavam dos males do mundo, mas que o faziam por meio de um som tão melodioso e agradável que era prazeroso ouvi-los. As letras das músicas, em Inglês, ele havia conseguido aqui e ali, já sabia quase todas decoradas. Eram estranhas… depressivas muitas delas… mas faziam pensar… igual ao livro que lia agora, cheio de anotações e pedaços de papel de caderno marcando os trechos mais importantes. Nele alguém explicava, numa linguagem às vezes complexa demais pra uma cabeça de 15 anos que mal começara a desvendar o mundo, que a liberdade é, no final das contas, um fardo cujo peso aqueles que em algum momento de suas vidas davam-se conta da existência, tinham de carregar. O Luciano já havia lido dezenas de vezes este trecho. E lia uma vez mais agora… e já se pegara pensando algumas vezes se afinal seria vantajoso ser livre, ou se o melhor – e menos doloroso – seria a vidinha de todo dia, tentando a todo custo criar laços afetivos com quem nem mesmo o queria perto. Fechou o livro vagarosamente, tirou os fones e olhou com ar distraído pela janela. Aquela gente dos livros que pegava com frequência na biblioteca vivia falando dum mundo enorme, tão cheio de complexidade. E ele, o Luciano, queria tanto poder falar com quem quer que fosse sobre as coisas que lia, escutava e adivinhava… Sim, porque muitas das idéias que tinha eram mais adivinhadas que lidas. Vinham assim, chegando meio como quem não quer nada, e quando o Luciano menos esperava, ele simplesmente “sabia” como as coisas eram. É que agora, enquanto via aquele mundo de rostos sem expressão indo e vindo logo ali fora, ao alcance duma janela, sentia uma necessidade desesperadora de buscar alento no outro… fosse o outro o pai… o melhor amigo… ou mesmo o professor de Redação a quem ninguém dava tanta atenção.

Mas era um alento que, apesar de tão novo, o Luciano já tinha plena consciência de que não teria. Acostumara-se já ao risinho condescendente da professora de educação religiosa (disciplina teoricamente importante no colégio católico em que estudava) quando tentara por algumas vezes expor suas dúvidas e incertezas. Da mesma forma como acostumara-se ao gosto amargo das negativas das meninas por quem as paixões juvenis fizeram o coração bater um pouco mais forte, cheio de sonhos. No início ainda sentia um calor subindo-lhe pelo rosto e avermelhando as bochechas quando, durante a formação de equipes para os trabalhos escolares, percebia de um a um os colegas sendo escolhidos e ele, o Luciano, sempre ali, entre os últimos (muitas das vezes “o” último). Já desistira dos esportes… era sempre o mais espancado em todos os que tentava tomar parte. E isso sem falar da zombaria morna do dia-a-dia por causa das músicas que escutava… dos livros que lia… das coisas que – cada vez menos – dizia…

Enfim… em alguns minutos o Luciano desceria do ônibus. E, como em todos os outros dias, começa a lhe subir o mesmo calor pelo corpo, o mesmo afoguear nas bochechas. E era sempre como se ele saísse – cada vez menos à vontade por ter de fazê-lo – do mundo admirável dessa gente que parecia oferecer respostas a todas as suas inseguranças e angústias, pra entrar em um em que não o entendiam, nem tampouco aceitavam. É… o Luciano é mesmo um cara muito estranho!

P.S. postado originalmente no Expressões Digitais em 18 de julho de 2006.

Muito ubuntu para todos.

Mais do mesmo

Here I am (again) with this old guitar

doin’ what I do.

by Neil Young.